{"id":9046,"date":"2021-12-12T22:09:35","date_gmt":"2021-12-13T01:09:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=9046"},"modified":"2021-12-12T22:09:35","modified_gmt":"2021-12-13T01:09:35","slug":"cortes-em-politicas-de-combate-a-fome-agravam-problema-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/cortes-em-politicas-de-combate-a-fome-agravam-problema-no-brasil\/","title":{"rendered":"Cortes em pol\u00edticas de combate \u00e0 fome agravam problema no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>Somada \u00e0 deterioriza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e \u00e0 disparada da infla\u00e7\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas trouxe de volta o fantasma da desnutri\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>por\u00a0Maria Lu\u00edsa Pimenta e Leonardo Campos da\u00a0<u><strong>Ag\u00eancia Nossa<\/strong><\/u><br \/>\nedi\u00e7\u00e3o de Sabrina Lorenzi<\/em><\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, programas criados com o objetivo de estudar e elaborar pol\u00edticas de combate \u00e0 fome sofreram cortes que t\u00eam contribu\u00eddo para a agravar o problema que o Brasil voltou a enfrentar. Somada \u00e0 deterioriza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e \u00e0 disparada da infla\u00e7\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas trouxe de volta o fantasma da desnutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE), vigente desde 1955, que possui o objetivo de oferecer recursos para creches e escolas, garantindo refei\u00e7\u00e3o para os alunos, considerado refer\u00eancia mundial, foi um a sofrer desfalques. Uma parcela de 30% da renda desse programa era destinada \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de alimentos de pequenos produtores rurais.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a no Fundeb, em mar\u00e7o de 2020, trouxe cortes or\u00e7ament\u00e1rios de 75% em recursos de alimenta\u00e7\u00e3o.\u00a0Com o corte, muitos agricultores perderam as encomendas e passaram \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de fome. Com as aulas retornando ap\u00f3s 18 meses de pandemia, alunos e funcion\u00e1rios tamb\u00e9m sofrem com o corte do PNAE.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do PNAE, outros programas v\u00eam sendo afetados. O Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea) foi totalmente extinto em setembro de 2019, primeiro ano do mandato do presidente Jair Bolsonaro. O \u00f3rg\u00e3o criado em 1993 no governo Itamar Franco e reorganizado em 2003 no governo Lula era respons\u00e1vel por organizar as diretrizes a serem tomadas para\u00a0 pol\u00edticas alimentares.<\/p>\n<p>De acordo com o IBGE, entre julho de 2017 e julho de 2018, praticamente um ano antes da revoga\u00e7\u00e3o do Consea, o n\u00famero de brasileiros passando fome j\u00e1 era de 10,3 milh\u00f5es de pessoas e com tend\u00eancia de alta. Vale lembrar que a popula\u00e7\u00e3o rural \u00e9 a que mais sofre com a fome. Em 2018, 7,1% das pessoas que moram em zonas rurais sofriam de inseguran\u00e7a alimentar grave. Esse n\u00famero hoje \u00e9 de 12%.<\/p>\n<p>Atualmente, o Brasil possui cerca de 19 milh\u00f5es de pessoas que enfrentam fome, de acordo com o Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN).<\/p>\n<p>O descaso com pol\u00edticas voltadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e os impasses relacionados a programas de apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o outras quest\u00f5es que dificultam o acesso \u00e0 alimentos. O economista Jo\u00e3o Paulo Lima, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz e colaborador volunt\u00e1rio do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento (CEDE) lembra que esses programas s\u00e3o a fonte principal de renda para muitos brasileiros e, com tantos problemas, principalmente com o fim do Bolsa Fam\u00edlia, as dificuldades refletem na hora de se alimentar:<\/p>\n<p><em>\u201cEm um momento at\u00edpico como a pandemia em que grande parte da popula\u00e7\u00e3o fica impossibilitada de trabalhar, os programas de aux\u00edlio s\u00e3o a principal fonte de renda de diversas fam\u00edlias. O governo se equivocou ao limitar o acesso e reduzir o benef\u00edcio sem que houvesse uma melhora vis\u00edvel na situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, a infla\u00e7\u00e3o de alimentos tem um peso muito maior para as fam\u00edlias mais pobres, que dependem do aux\u00edlio, visto que o gasto com comida \u00e9 proporcionalmente maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda delas\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O Bolsa Fam\u00edlia era um dos principais programas de repasse de renda para a popula\u00e7\u00e3o, com reconhecimento mundial. Ele foi criado em 2001, no governo Lula, como uma amplia\u00e7\u00e3o dos programas Bolsa Escola, Bolsa Alimenta\u00e7\u00e3o, Aux\u00edlio G\u00e1s e Cadastramento \u00danico do Governo Federal (Cad\u00danico), iniciados no governo de Fernando Henrique Cardoso. O Bolsa Fam\u00edlia foi considerado pela ONU um dos fatores que fez o Brasil sair do Mapa da Fome em 2014 e j\u00e1 tirou 14 milh\u00f5es de brasileiros da condi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u201cUm aspecto essencial de pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda \u00e9 a regularidade dos pagamentos, de modo que seja previs\u00edvel, permitindo que os benefici\u00e1rios se planejem. O governo gera uma incerteza desnecess\u00e1ria ao substituir o Bolsa Fam\u00edlia, um programa muito bem desenhado em funcionamento h\u00e1 18 anos\u201d, explica Jo\u00e3o Paulo Lima.<\/p>\n<p><strong>Desemprego elevado<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia da Covid-19 foi um agravante do enfraquecimento do mercado de trabalho, mas a realidade \u00e9 que o desemprego j\u00e1 vinha crescendo h\u00e1 anos e neste ano houve ainda o peso da infla\u00e7\u00e3o, que corr\u00f3i mais severamente a renda dos mais pobres.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos temos observado uma deteriora\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, al\u00e9m do crescimento do desemprego, houve tamb\u00e9m um aumento do setor informal, caracterizado por empregos de menor complexidade e sal\u00e1rios mais baixos\u201d, explica o economista Jo\u00e3o Paulo Lima.<\/p>\n<p>O aumento dos pre\u00e7os nas prateleiras dos supermercados, impulsionado pela infla\u00e7\u00e3o, dificulta o acesso aos alimentos. O economista Wallace de Anchieta Marques, p\u00f3s graduando em Finan\u00e7as pela UFF, destaca que a infla\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 muito elevada se comparada inclusive a outras economias:<\/p>\n<p>\u201cO Brasil est\u00e1 mal. Quando a gente fala comparativamente com outras economias, a infla\u00e7\u00e3o, o n\u00edvel de atividade, n\u00e3o correspondem ao potencial do pa\u00eds\u201d.\u00a0Hoje, o Brasil \u00e9 o terceiro pa\u00eds com a maior infla\u00e7\u00e3o acumulada em 12 meses, perdendo apenas para Argentina e Turquia, afirmou.<\/p>\n<p>Isso reflete no bolso do consumidor, como o da professora do Estado do Rio de Janeiro Sandra Elisa Figueira, de 58 anos. Ela nota um grande aumento no valor dos produtos aliment\u00edcios nas idas ao supermercado. \u201cEu percebi que produtos b\u00e1sicos como arroz,\u00a0 feij\u00e3o e carne em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio do ano est\u00e3o quase 50% mais caros\u201d, conta.<\/p>\n<p><strong>A fome no Brasil n\u00e3o vem de hoje\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, a partir do mesmo\u00a0 ano, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se inverter. De 2013 a 2018, a popula\u00e7\u00e3o que passava fome aumentou 8%,\u00a0segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domic\u00edlio (PNAD) e da Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF).\u00a0A seguran\u00e7a alimentar diminuiu para 63,3%. Entre 2018 e 2020 foi pior: houve um aumento de 27,6% no n\u00famero de brasileiros em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Com a pandemia da Covid-19, se intensificou at\u00e9 chegar ao patamar de hoje. \u00c9 poss\u00edvel perceber que a crescente de brasileiros passando fome, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 fruto apenas da pandemia.<\/p>\n<p>Um indicativo econ\u00f4mico que reflete diretamente na crise vivenciada atualmente \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o, que se estabilizou nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Por\u00e9m, especialmente no ano de 2020, o indicador disparou juntamente com a desvaloriza\u00e7\u00e3o do real. Os produtos da cesta b\u00e1sica subiram consideravelmente de pre\u00e7o e o sal\u00e1rio m\u00ednimo n\u00e3o acompanhou essa alta. A professora Sandra conta que hoje precisa usar uma parte maior do seu sal\u00e1rio para alimenta\u00e7\u00e3o e que, por conta da alta, precisou deixar de consumir outros produtos: \u201cO custo alimenta\u00e7\u00e3o aumentou e para compensar estou diminuindo os sup\u00e9rfluos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Infla\u00e7\u00e3o mais perversa com pobres<\/strong><\/p>\n<p>O economista Wallace explica que, hoje, a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo uma vari\u00e1vel preocupante: \u201d A gente est\u00e1 bem preocupado porque est\u00e1 persistindo muito mais do que o esperado efetivamente entre os bens industriais, principalmente, e isso se deve muito \u00e0 lentid\u00e3o da normaliza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de oferta\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPor que a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 muito perigosa? Um dos aspectos \u00e9 que ela corr\u00f3i o poder de compra. O rico consegue investir em mecanismos de investimentos no mercado financeiro que protegem o seu dinheiro da corros\u00e3o do poder de compra. [\u2026] E o pobre n\u00e3o, o pobre muitas vezes nem sabe o que \u00e9 isso. Aquela pessoa que vende pipoquinha na rua, que vende salgado, a tia da cantina, a tia que faz a limpeza di\u00e1ria, a diarista\u2026 ent\u00e3o, enfim, s\u00e3o esses aspectos que est\u00e3o nessa quest\u00e3o\u201d, complementa o economista Wallace de Anchieta Marques.<\/p>\n<p>O aumento do pre\u00e7o dos produtos no supermercado tem rela\u00e7\u00e3o, principalmente, com a valoriza\u00e7\u00e3o das commodities e a infla\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u201cArroz, carne, feij\u00e3o, \u00f3leo, frango\u2026\u201d Esses s\u00e3o alguns dos alimentos que Sandra mais viu alterar os pre\u00e7os nos \u00faltimos meses, atingindo valores muito mais altos que o normal. \u201cEu percebi que hoje esses produtos b\u00e1sicos em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio do ano est\u00e3o quase 50% mais caros\u201d, contabiliza\u00a0 a professora. A valoriza\u00e7\u00e3o das commodities \u00e9 um dos motivos para esse problema. \u201cA gente teve algumas exporta\u00e7\u00f5es favorecidas pelo crescimento da economia mundial. Os pre\u00e7os das commodities tornaram-se mais interessantes e o Brasil \u00e9 um grande exportador de commodities, especialmente soja. E n\u00f3s tivemos esse favorecimento, ent\u00e3o isso trouxe mais dinheiro para a casa\u201d, explica Wallace. O aumento de exporta\u00e7\u00e3o de commodities, por\u00e9m, busca aumentar o lucro do agroneg\u00f3cio, de forma que o mercado interno se prejudique.<\/p>\n<p>De acordo com o IBGE, houve uma alta de 0,6% no ramo de alimentos e bebidas em rela\u00e7\u00e3o ao m\u00eas anterior. Os maiores aumentos foram da batata-inglesa (19,91%), caf\u00e9 mo\u00eddo (7,51%) e\u00a0 frango em peda\u00e7os (4,47%). \u201cPrecisei trocar marcas de produtos em geral por outras de menor custo, como, por exemplo, produtos de limpeza, arroz e \u00f3leo\u201d, conta Sandra que, assim como todos os brasileiros, est\u00e1 precisando se virar para evitar que a maior parte do sal\u00e1rio v\u00e1 para o carrinho de supermercado.<\/p>\n<p><em>* Os autores desta reportagem s\u00e3o estudantes de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) sob coordena\u00e7\u00e3o da jornalista<strong>\u00a0Larissa Morais<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte:\u00a0<strong>Ag\u00eancia Nossa<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somada \u00e0 deterioriza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e \u00e0 disparada da infla\u00e7\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o dessas pol\u00edticas trouxe de volta o fantasma da desnutri\u00e7\u00e3o por\u00a0Maria Lu\u00edsa Pimenta e Leonardo Campos da\u00a0Ag\u00eancia Nossa edi\u00e7\u00e3o de Sabrina Lorenzi Ao longo dos \u00faltimos anos, programas criados com o objetivo de estudar e elaborar pol\u00edticas de combate \u00e0 fome sofreram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":9048,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1392,921],"class_list":["post-9046","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-covid19","tag-fome"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9046"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9046\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9049,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9046\/revisions\/9049"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}