{"id":7620,"date":"2021-05-11T18:30:51","date_gmt":"2021-05-11T21:30:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=7620"},"modified":"2021-05-11T15:55:09","modified_gmt":"2021-05-11T18:55:09","slug":"cansaco-medo-e-culpa-marcam-rotina-das-maes-enfermeiras-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/cansaco-medo-e-culpa-marcam-rotina-das-maes-enfermeiras-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Cansa\u00e7o, medo e culpa marcam rotina das m\u00e3es enfermeiras na pandemia"},"content":{"rendered":"<p><em>Em meio a exaustivas jornadas de trabalho, impactadas ainda mais pela Covid-19, profissionais lutam por valoriza\u00e7\u00e3o profissional<\/em><\/p>\n<p>\u201cEstou cansada.\u201d Quase um ano e meio depois do in\u00edcio da pandemia, n\u00e3o espanta que esse seja o sentimento da enfermeira Sandra Valesca Vasconcelos Fava. A rotina de trabalho na UTI Neonatal do Hospital Infantil Albert Sabin em Fortaleza, no Cear\u00e1, se torna ainda mais desafiadora diante de um cen\u00e1rio prolongado de mortes e incertezas.<\/p>\n<p>\u201cAssusta, porque n\u00e3o vejo previs\u00e3o de acabar. Al\u00e9m da demanda de trabalho ser grande, ainda temos uma sobrecarga psicol\u00f3gica e emocional por ver pessoas sofrendo, morrendo. N\u00f3s, da sa\u00fade, estamos acostumados a lidar com dor e sofrimento, mas a pandemia nos trouxe isso em um quantitativo muito maior\u201d, conta a profissional, que atua na unidade desde 2005. \u201cTodo dia \u00e9 isso, a gente pede for\u00e7as, enxuga as l\u00e1grimas e volta para o campo de batalha.\u201d<\/p>\n<p>Foi nessa trincheira que a enfermeira testemunhou uma nova e dram\u00e1tica fase da pandemia. Traduzido, no seu caso, com o acometimento dos rec\u00e9m-nascidos e a consequente mudan\u00e7a de protocolos na UTI. \u201cTivemos um aumento de beb\u00eas infectados. Com isso, todo novo paciente \u00e9 tratado como um caso suspeito. Essa crian\u00e7a vai direto para o isolamento, at\u00e9 que tenhamos o resultado negativo do teste do RT-PCR\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cQuando temos algum resultado positivo, imediatamente os demais leitos vagos da UTI s\u00e3o bloqueados. Mudamos completamente a nossa rotina. \u00c9 algo bastante estressante\u201d, completa.<\/p>\n<p>Ao sair do hospital, o cansa\u00e7o se junta ao medo e \u00e0 culpa de transmitir o v\u00edrus para os familiares. Mesmo com todos os cuidados, foi o que aconteceu. Al\u00e9m de Sandra, suas filhas de 18, 21 e 24 anos tiveram Covid-19, com quadros leves. \u201cA sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que n\u00e3o estamos protegendo nossas fam\u00edlias nesse sentido. Eu estou vacinada, acredito na imuniza\u00e7\u00e3o, mas meus familiares ainda n\u00e3o\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>A enfermeira Taciana Holtz tamb\u00e9m tenta equilibrar as rotinas hospitalares como enfermeira, com o papel de m\u00e3e de duas filhas, de 25 e 14 anos. Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel evitar o sentimento de omiss\u00e3o. \u201c\u00c9 bastante dif\u00edcil, acabo passando mais horas no hospital, e o que pega muito \u00e9 a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, preciso ajudar minha filha mais nova com os estudos online, ent\u00e3o fica tudo mais puxado\u201d.<\/p>\n<p>Morando da cidade de Porto Velho, em Rond\u00f4nia, ela se divide entre os atendimentos na UTI do Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, em um plant\u00e3o de 24 horas na semana \u2013 al\u00e9m de uma complementa\u00e7\u00e3o uma vez ao m\u00eas \u2013 e na equipe de resgate no Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia (SAMU), em ambul\u00e2ncias UTIs. N\u00e3o faltam hist\u00f3rias de dor.<\/p>\n<p>\u201cNo Samu, fazemos muito transporte de pacientes de unidades de pronto atendimento para hospitais com UTI. Teve dias de atendermos 20 ocorr\u00eancias dessas em 24 horas\u201d, relata. \u201cJ\u00e1 no hospital, o momento mais triste para toda a equipe foi quando tivemos, do total de 13 leitos de UTI, oito pacientes gestantes. Como somos uma unidade refer\u00eancia em obstetr\u00edcia, atendemos muitas pacientes obst\u00e9tricas, pu\u00e9rperas. Chegamos a perder muitas pacientes e os beb\u00eas e isso me abalou muito psicologicamente\u201d, conta.<\/p>\n<p>O relato da enfermeira confirma outra face da pandemia, que vem acometendo mulheres gr\u00e1vidas e pu\u00e9rperas de maneira mais agressiva. A m\u00e9dia semanal de mortes entre o grupo dobrou este ano. Dados do Observat\u00f3rio Obst\u00e9trico Brasileiro Covid-19 mostram que, em 2020, uma m\u00e9dia de 10,5 gestantes morreram por Covid, por semana; em 2021, a m\u00e9dia de \u00f3bitos por semana chegou, at\u00e9 10 de abril, a 25,8 no grupo.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da profiss\u00e3o, e das duras rotinas enfrentadas durante a pandemia, Sandra e Taciana t\u00eam em comum o apoio psicol\u00f3gico, considerado indispens\u00e1vel para ambas. As profissionais t\u00eam acesso a um programa de sa\u00fade mental oferecido pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), al\u00e9m de acompanhamentos extras. \u201cSen\u00e3o a gente n\u00e3o aguenta. Preciso cuidar de mim para conseguir cuidar dos meus pacientes\u201d, garante Sandra. \u201c\u00c9 preciso equilibrar os nossos abalos emocionais\u201d, completa Taciana.<\/p>\n<p>Uma luta que precisa ser reconhecida<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias de Sandra e Taciana certamente encontram ecos Pa\u00eds afora, sobretudo porque a \u00e1rea da enfermagem \u2013 entre enfermeiros, t\u00e9cnicos e auxiliares \u2013 \u00e9 majoritariamente feminina. Uma pesquisa realizada pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), a pedido do Cofen, em 2015, j\u00e1 mostrava que a presen\u00e7a das mulheres era de 85,1%. Estimativas mais recentes do Conselho apontam um contingente de quase 2,5 milh\u00f5es de profissionais da \u00e1rea pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>S\u00e3o profissionais que, em sua maioria, acumulam fun\u00e7\u00f5es e n\u00e3o s\u00e3o devidamente reconhecidas pelo fato de serem mulheres, \u00e9 o que explica a presidenta do Cofen, Bet\u00e2nia Santos. \u201cEssas mulheres, muitas vezes, s\u00e3o arrimos de fam\u00edlia, criam seus filhos sozinhas, acumulam fun\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, isso quando n\u00e3o cuidam de outros parentes, idosos enfermos. S\u00e3o profissionais que cumprem extensas rotinas de plant\u00f5es para terem um sal\u00e1rio que, muitas vezes, garante apenas a sobreviv\u00eancia delas e de seus familiares\u201d, explica, enunciando uma das principais lutas da categoria, a de melhorias salariais.<\/p>\n<p>\u201cA gente ainda observa uma defasagem salarial na categoria, tamb\u00e9m marcada pela quest\u00e3o de g\u00eanero. Reconhec\u00ea-las e garantirmos um sal\u00e1rio digno \u00e9 bom n\u00e3o s\u00f3 a elas, como a toda a popula\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o que elas n\u00e3o trabalhem de maneira \u00e9tica por ganharem menos, n\u00e3o \u00e9 isso, mas teremos profissionais mais satisfeitas, descansadas, menos preocupadas e, portanto, aptas a oferecerem a melhor qualidade na assist\u00eancia\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>As profissionais veem a desigualdade acontecer na pr\u00e1tica. \u201cAinda vivemos em um pa\u00eds onde a hegemonia m\u00e9dica \u00e9 muito grande, onde os valores pagos por um plant\u00e3o para os m\u00e9dicos \u00e9 infinitamente maior do que os pagos para as demais categorias de n\u00edvel superior, como enfermeiros e fisioterapeutas. Deveria haver uma equipara\u00e7\u00e3o salarial mais justa que, na verdade, n\u00e3o existe\u201d, aponta Sandra.\u00a0 \u201cH\u00e1 uma quest\u00e3o de invisibilidade at\u00e9 para os gestores, a \u00faltima equipe a ser lembrada \u00e9 a da enfermagem\u201d, atesta Taciana.<\/p>\n<p>A categoria n\u00e3o tem um piso salarial nacional estabelecido. \u201cDessa forma, os estados e munic\u00edpios instituem o valor que querem, h\u00e1 profissionais que chegam a ganhar menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo\u201d, critica a presidenta do Cofen. Bet\u00e2nia ainda exp\u00f5e quest\u00f5es sobre a carga hor\u00e1ria da categoria que, muitas vezes, chega a mais de 40 horas semanais. \u201cLutamos por uma carga hor\u00e1ria de at\u00e9 30 horas semanais\u201d, garante Bet\u00e2nia.<\/p>\n<p>A pesquisa sobre o perfil da categoria, de 2015, demonstrou que um elevado percentual dos profissionais da enfermagem (17,6%) declararam ter renda total mensal de at\u00e9 R$ 1.000,00, \u2018ou seja, submetidos a situa\u00e7\u00e3o de subsal\u00e1rios\u2019, apontava o estudo. A situa\u00e7\u00e3o foi encontrada no setor p\u00fablico (14,4%), no privado (22,1%) e no setor filantr\u00f3pico (23,7%).<\/p>\n<p>Ainda de acordo com o estudo, cerca de 64% da equipe tem renda total de at\u00e9 3 mil reais. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior para os auxiliares e t\u00e9cnicos de enfermagem, em maioria de n\u00edvel m\u00e9dio: a maioria absoluta destes trabalhadores tem renda mensal somando todas as suas atividades de at\u00e9 R$ 2.000,00.<\/p>\n<p>O estudo ainda identificou uma variedade de jornadas de trabalho, desde subjornadas, na qual os profissionais trabalham menos de 20 horas (3,3%); de 31 a 40 horas (34,7%); at\u00e9 jornadas extenuantes que excedem a 40 horas, somando 38,6% do total.<\/p>\n<p><strong>Batalha pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>O Cofen tem pressionado para levar \u00e0 vota\u00e7\u00e3o o Projeto de Lei (PL) 2564\/2020, do senador Fabiano Contarato (Rede-ES) que cria um piso salarial mensal de R$ 7.315 para enfermeiros, com base na jornada de trabalho de 30 horas semanais. Ainda de acordo com a proposta, os t\u00e9cnicos de enfermagem devem receber pelo menos 70% desse valor e, os auxiliares de enfermagem e parteiras, 50%. Se aprovados, os pisos salariais dever\u00e3o ser aplicados em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>O projeto, que j\u00e1 obteve declara\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel da relatora, a senadora Zenaide Maia (Pros-RN), continua na agenda de pautas da Casa, sem data definida para vota\u00e7\u00e3o. Como \u00faltima a\u00e7\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00e3o, o conselho protocolou um of\u00edcio endere\u00e7ado ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), exigindo celeridade \u00e0 vota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada mais justo para profissionais que reconhecem a essencialidade de suas atividades. \u201cFazemos parte de uma equipe multidisciplinar, em que a quebra de um elo faz todo o trabalho desandar. O enfermeiro det\u00e9m o cuidar, a gente fala que o m\u00e9dico trata e o enfermeiro cuida, o m\u00e9dico passa muito menos tempo na cabeceira do paciente, porque ele prescreve uma medica\u00e7\u00e3o, um tratamento, mas quem fica administrando e monitorando esse paciente \u00e9 a enfermagem. A gente precisa ser reconhecido pelo compromisso que temos\u201d, garante Sandra. \u201cGanhamos um reconhecimento da sociedade, com a pandemia, mas precisamos avan\u00e7ar com o nossa valoriza\u00e7\u00e3o profissional\u201d, completa Taciana.<\/p>\n<p><em>Fonte:\u00a0<strong>Portal Vermelho<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio a exaustivas jornadas de trabalho, impactadas ainda mais pela Covid-19, profissionais lutam por valoriza\u00e7\u00e3o profissional \u201cEstou cansada.\u201d Quase um ano e meio depois do in\u00edcio da pandemia, n\u00e3o espanta que esse seja o sentimento da enfermeira Sandra Valesca Vasconcelos Fava. A rotina de trabalho na UTI Neonatal do Hospital Infantil Albert Sabin em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7621,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[153],"tags":[1301,1392,1511,85],"class_list":["post-7620","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude","tag-coronavirus","tag-covid19","tag-enfermeiras","tag-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7620"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7620\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7622,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7620\/revisions\/7622"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}