{"id":6234,"date":"2020-08-27T15:33:29","date_gmt":"2020-08-27T18:33:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=6234"},"modified":"2020-08-27T15:33:29","modified_gmt":"2020-08-27T18:33:29","slug":"por-que-dizer-tomei-cloroquina-e-por-isso-me-curei-como-faz-bolsonaro-e-uma-falacia-e-nao-prova-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/por-que-dizer-tomei-cloroquina-e-por-isso-me-curei-como-faz-bolsonaro-e-uma-falacia-e-nao-prova-nada\/","title":{"rendered":"Por que dizer &#8216;tomei cloroquina e por isso me curei&#8217;, como faz Bolsonaro, \u00e9 uma &#8216;fal\u00e1cia&#8217; e n\u00e3o prova nada"},"content":{"rendered":"<p class=\"story-body__introduction\">Jo\u00e3o estava com dor de cabe\u00e7a. Jo\u00e3o tomou suco de laranja. A dor de cabe\u00e7a de Jo\u00e3o passou.<\/p>\n<p>Podemos afirmar que a dor de cabe\u00e7a de Jo\u00e3o passou porque ele tomou suco de laranja?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizer que sim \u00e9 criar uma falsa correla\u00e7\u00e3o de causa e efeito.<\/p>\n<p>Pois algu\u00e9m dizer que tomou cloroquina e, por causa disso, se curou da covid-19, como faz o presidente Jair Bolsonaro, \u00e9 exatamente o mesmo.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que se chama de &#8220;evid\u00eancia aned\u00f3tica&#8221;, informal, sem valor cient\u00edfico. E o erro de l\u00f3gica usado para se chegar nessa &#8220;evid\u00eancia&#8221; \u00e9 uma fal\u00e1cia l\u00f3gica, chamado tamb\u00e9m de correla\u00e7\u00e3o coincidente ou, em latim,\u00a0<i>post hoc ergo propter hoc<\/i>\u00a0(&#8220;depois disso, logo, causado por isso&#8221;), explica o cientista David Grimes, autor do livro\u00a0<i>The Irrational Ape<\/i>, sobre desinforma\u00e7\u00e3o relacionada a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa fal\u00e1cia l\u00f3gica \u00e9 constru\u00edda a partir da ideia de que dois eventos que acontecem em uma sequ\u00eancia cronol\u00f3gica est\u00e3o ligados por meio de uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Outros exemplos: &#8220;Eu espirrei e, segundos depois, a luz caiu&#8221;. A luz caiu por que eu espirrei? &#8220;Hoje de manh\u00e3 n\u00f3s dan\u00e7amos. Mais tarde, choveu.&#8221; Choveu porque dan\u00e7amos?<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem uma pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o para pensar de maneira temporal: &#8216;se aconteceu A e depois aconteceu B, logo B foi causado por A'&#8221;, diz Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Quest\u00e3o de Ci\u00eancia. &#8220;\u00c9 intuitivo pensar assim. De maneira gen\u00e9rica, n\u00e3o parece que est\u00e1 errado. O m\u00e9todo cient\u00edfico \u00e9 que \u00e9 contraintuitivo e precisa ser aprendido.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas n\u00e3o param para pensar que existem diversos outros fatores. Uma pessoa pode ter melhorado por causa do rem\u00e9dio, apesar do rem\u00e9dio, ou por causas nada a ver com o rem\u00e9dio. As pessoas atribuem facilmente rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito que n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<figure style=\"width: 597px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6457\/production\/_113278652_b68f561a-6369-4de0-9516-1a372e904254.jpg\" alt=\"hidroxicoloroquina\" width=\"597\" height=\"336\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Estudos mostraram que a cloroquina e a hidroxicoloroquina n\u00e3o s\u00e3o eficazes no combate ao coronav\u00edrus. Foto:GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">\u00a0<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Se Jo\u00e3o tem uma dor de cabe\u00e7a, toma um banho, bebe \u00e1gua, toma um ch\u00e1 de ervas, toma um medicamento, bebe suco de laranja, sai para caminhar, tira uma soneca\u2026 Qual dessas vari\u00e1veis ajudou a curar a dor de cabe\u00e7a? Ou ent\u00e3o, ser\u00e1 que nenhuma teve efeito para a dor de cabe\u00e7a, que passou sem interfer\u00eancia dessas a\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Seres humanos tendem a ser &#8220;cegos&#8221; para as diferentes vari\u00e1veis, al\u00e9m de ter vieses de confirma\u00e7\u00e3o quando querem acreditar que determinada interven\u00e7\u00e3o ou medicamento funciona para alguma doen\u00e7a, observa Grimes.<\/p>\n<p>Mas casos individuais ou isolados n\u00e3o t\u00eam qualquer valor cient\u00edfico.<\/p>\n<p>\u00c9 porque sem controlar vari\u00e1veis n\u00e3o d\u00e1 para chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que algu\u00e9m melhorou por causa de um medicamento ou outra interven\u00e7\u00e3o. &#8220;O que mais a pessoa fez nesse per\u00edodo da doen\u00e7a? A doen\u00e7a pode ter passada sozinha, como muitas passam. A pessoa pode ter come\u00e7ado a se alimentar melhor, parou de se alimentar com algo que estava fazendo mal e nem sabia, come\u00e7ou a dormir melhor, saiu de um per\u00edodo de estresse. Ou ent\u00e3o, houve uma resolu\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da doen\u00e7a&#8221;, enumera Pasternak.<\/p>\n<p>Ela cita seu pr\u00f3prio exemplo: &#8220;Eu tive asma infantil, que passou na fase adulta. Imagina que depois de 5 ou 6 anos tendo uma crian\u00e7a asm\u00e1tica, minha m\u00e3e decidisse que ia me dar homeopatia. E, depois de um ano, a asma sumisse. Qual seria a conclus\u00e3o da minha m\u00e3e? Que a homeopatia curou minha asma, quando provavelmente foi a puberdade, j\u00e1 que \u00e9 uma doen\u00e7a tipicamente infantil&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Isso vai dando for\u00e7a para essas narrativas de evid\u00eancias aned\u00f3ticas, com pessoas dizendo: &#8216;eu conhe\u00e7o uma crian\u00e7a que tomou homeopatia e a asma passou&#8217;. Essas narrativas s\u00e3o muito fortes na sociedade porque s\u00e3o depoimentos de amigos, conhecidos, que viram isso acontecer&#8221;, diz Pasternak. &#8220;A evid\u00eancia aned\u00f3tica sempre tem valor sentimental, emocional que \u00e9 muito mais forte.&#8221;<\/p>\n<p>Nosso c\u00e9rebro responde ao apelo das experi\u00eancias pessoais, opina o comunicador de ci\u00eancia Jonathan Jarry, do McGill Office for Science and Society, organiza\u00e7\u00e3o dedicada ao ensino de ci\u00eancias na Universidade McGill, em Montreal, Canad\u00e1. &#8220;\u00c9 por isso que a maneira como contamos hist\u00f3rias em livros e filmes funciona t\u00e3o bem. N\u00f3s amamos uma boa hist\u00f3ria&#8221;, diz ele \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Mas quando se trata de avaliar se um tratamento funciona ou n\u00e3o, as hist\u00f3rias podem confundir em vez de educar. Precisamos recorrer \u00e0 ci\u00eancia para remover as vari\u00e1veis \u200b\u200bcontaminantes e chegar a uma resposta objetiva.&#8221;<\/p>\n<p>Para Grimes, &#8220;os humanos t\u00eam dificuldade de encontrar padr\u00f5es&#8221;. &#8220;As coisas mais v\u00edvidas para nossa mem\u00f3ria s\u00e3o as anedotas, enquanto estat\u00edsticas m\u00e9dicas s\u00e3o entediantes e secas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>As anedotas, diz Jarry, podem, sim, ser usada para gerar hip\u00f3teses \u2014 que ent\u00e3o testamos rigorosamente \u2014 , mas elas n\u00e3o s\u00e3o de forma alguma conclusivas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<figure style=\"width: 606px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/BFF9\/production\/_112054194_hi061273952.jpg\" alt=\"Trump falando no microfone\" width=\"606\" height=\"341\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Trump foi um dos primeiros a promover uso da cloroquina. Foto:WIN MCNAMEE\/GETTY IMAGES<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">\u00a0<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Isso porque h\u00e1 uma s\u00e9rie de raz\u00f5es pelas quais algu\u00e9m pode ter melhorado que nada t\u00eam a ver com o tratamento que afirmam ser a causa da cura.<\/p>\n<p>&#8220;Do lado de fora, \u00e9 f\u00e1cil ver: voc\u00ea tem doen\u00e7a, recebeu uma interven\u00e7\u00e3o (um medicamento) e depois ficou sem a doen\u00e7a. \u00c9 muito f\u00e1cil pensar que a interven\u00e7\u00e3o causou a mudan\u00e7a na situa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Jarry. &#8220;Mas pode ser que a pessoa tenha feito v\u00e1rios tratamentos diferentes. Depoimentos pessoais est\u00e3o cheios de vari\u00e1veis \u200b\u200bque n\u00e3o controlamos, sobre as quais nem mesmo estamos pensando, e que podem afetar o resultado final. O papel da ci\u00eancia \u00e9 se livrar de tantas vari\u00e1veis \u200b\u200bquanto poss\u00edvel, limpar para que tudo o que restar seja exatamente o que nos interessa estudar.&#8221;<\/p>\n<p>Hoje, existem m\u00e9todos cient\u00edficos confi\u00e1veis para comprovar se um medicamento tem efic\u00e1cia para uma doen\u00e7a (leia mais abaixo), e esses m\u00e9todos passam longe das evid\u00eancias aned\u00f3ticas repetidas por Bolsonaro.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Bolsonaro e a cloroquina<\/h2>\n<p>Erguer uma caixa de hidroxicloroquina como se ela fosse uma cura para a covid-19 e repetir que foi curado da doen\u00e7a por causa do medicamento, uma afirma\u00e7\u00e3o perigosa e sem embasamento cient\u00edfico, j\u00e1 se tornou algo corriqueiro para o presidente do Brasil.<\/p>\n<p>Sua \u00faltima defesa ao rem\u00e9dio foi na segunda (24\/08) em um evento no Pal\u00e1cio do Planalto chamado &#8220;Brasil vencendo a covid-19&#8221;, com o pa\u00eds chegando a quase 115 mil mortos.<\/p>\n<p>Bolsonaro reuniu m\u00e9dicos entusiastas da hidroxicloroquina e membros do governo para uma cerim\u00f4nia em defesa do uso do medicamento no combate \u00e0 doen\u00e7a, apesar de n\u00e3o haver ind\u00edcios de sua efic\u00e1cia \u2014 e mais, haver ind\u00edcios de que, pelo contr\u00e1rio, ela n\u00e3o funciona e seu uso pode trazer efeitos colaterais para pacientes.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas salvaram muitas vidas&#8221;, alegou o presidente no evento, sem apresentar provas disso. Ele disse, ainda, que observou que quem tomava o medicamento desde o in\u00edcio tinha &#8220;mais chance&#8221; de sobreviver. Citou seu exemplo pessoal e o de &#8220;mais de dez ministros que se trataram com a medica\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;Nenhum foi hospitalizado. Ent\u00e3o, est\u00e1 dando certo.&#8221;<\/p>\n<p>A fala de Bolsonaro \u00e9 o exemplo concreto do que \u00e9 uma evid\u00eancia aned\u00f3tica. Primeiro, a grande maioria das pessoas com a covid-19 sobrevivem. Como saber que o presidente n\u00e3o sobreviveria de qualquer forma sem a hidroxicloroquina? Al\u00e9m disso, ele foi tratado s\u00f3 com hidroxicloroquina? Seus ministros tamb\u00e9m? E se n\u00e3o tivessem tomado nada? Como estabelecer uma correla\u00e7\u00e3o direta sem um estudo cl\u00ednico s\u00e9rio? Caso Bolsonaro tenha tomado suco de laranja durante o tratamento, seria poss\u00edvel dizer que foi o suco de laranja que o curou?<\/p>\n<p>&#8220;A covid-19 \u00e9 uma doen\u00e7a com 90% de taxa de cura espont\u00e2nea. Ou seja, a doen\u00e7a pode se resolver sozinha, mas o m\u00e9rito vai para o rem\u00e9dio?&#8221;, questiona Pasternak.<\/p>\n<p>&#8220;Dizer: &#8216;Eu tomei cloroquina e, portanto, me curei&#8217; est\u00e1 errado. As duas coisas podem ter acontecido simultaneamente, o que n\u00e3o quer dizer que uma foi a causa da outra. N\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito.&#8221;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, em rela\u00e7\u00e3o a hidroxicloroquina, j\u00e1 estamos em uma etapa de dizer &#8220;n\u00f3s j\u00e1 demonstramos que n\u00e3o tem efeito para a covid-19, e que ningu\u00e9m se cura desta doen\u00e7a por causa desse medicamento&#8221;, observa Pasternak. Existem diversos estudos que trazem evid\u00eancias de que a hidroxicloroquina n\u00e3o tem efic\u00e1cia para a covid-19.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o observar benef\u00edcio do medicamento para a redu\u00e7\u00e3o da mortalidade da covid-19, a OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade) interrompeu os estudos com a cloroquina. A Sociedade Brasileira de Infectologia disse considerar &#8220;urgente e necess\u00e1rio&#8221; que a hidroxicloroquina &#8220;seja abandonada no tratamento de qualquer fase da covid-19&#8221;, e sugeriu que o governo interrompa sua oferta.<\/p>\n<p>Para Jarry, h\u00e1 consequ\u00eancias perigosas para quem acredita nessas anedotas \u2014 principalmente quando s\u00e3o contadas e repetidas pelo presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas podem passar a tomar esse medicamento como profilaxia, por exemplo, e deixar de adotar o distanciamento f\u00edsico&#8221;, diz. Elas tamb\u00e9m podem tomar o medicamento sem acompanhamento m\u00e9dico, e terem efeitos adversos como os relacionados ao sistema cardiovascular \u2014 o medicamento pode acelerar o ritmo do cora\u00e7\u00e3o \u2014 al\u00e9m de outros, como retinopatias e hipoglicemia grave.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ensaio cl\u00ednico em alto-mar<\/h2>\n<p>Houve uma \u00e9poca em que evid\u00eancias aned\u00f3ticas eram comuns na medicina. As doen\u00e7as, ent\u00e3o, eram consideradas fruto do desequil\u00edbrio de &#8220;humores&#8221;.<\/p>\n<p>Uma delas tirou a vida de diversos marinheiros. Era a \u00e9poca das Grandes Navega\u00e7\u00f5es e, passando meses em alto-mar com uma dieta escassa e pouco variada, marinheiros temiam o incha\u00e7o, sangramento das gengivas, fraqueza e dificuldade de respirar que acometiam grande parte da categoria.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">\n<figure style=\"width: 604px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D597\/production\/_91097645_jameslind.jpg\" alt=\"James Lind, no conjunto &quot;Momentos na medicina&quot; produzido por uma empresa farmac\u00eautica americana na d\u00e9cada de 1950\" width=\"604\" height=\"427\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">O experimento de James Lind com frutas c\u00edtricas foi um dos primeiros ensaios cl\u00ednicos relatados na medicina. Foto: INSTITUTE OF NAVAL MEDICINE<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">\u00a0<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para o escorbuto, que hoje sabemos ser causado pela falta de vitamina C na dieta, exploradores tinham suas pr\u00f3prias receitas: o capit\u00e3o James Cook, famoso navegador ingl\u00eas pioneiro na explora\u00e7\u00e3o de rotas para Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia, sempre levava chucrute em suas viagens; outros acreditavam que \u00e1cido sulf\u00farico era o rem\u00e9dio ideal. N\u00e3o sabiam o que era a doen\u00e7a, e suas &#8220;curas&#8221; eram baseadas em evid\u00eancias aned\u00f3ticas, relatos informais.<\/p>\n<p>A partir desse conhecimento popular, o m\u00e9dico escoc\u00eas James Lind conduziu o que hoje se reconhece como um ensaio cl\u00ednico, talvez o primeiro deles, para verificar a efic\u00e1cia dos rem\u00e9dios. Em 1747, quando estava a bordo do navio HMS Salisbury, separou 12 homens que estavam com sintomas de escorbuto e os dividiu em seis pares.<\/p>\n<p>Cada par recebeu um tipo de tratamento diferente, criado a partir de rem\u00e9dios para a doen\u00e7a sugeridos em registros at\u00e9 ent\u00e3o:<\/p>\n<p>1. um quarto de um copo de cidra; 2. 25 gotas de vitr\u00edolo (\u00e1cido sulf\u00farico dilu\u00eddo), tr\u00eas vezes por dia; 3. vinagre; 4. \u00e1gua do mar; 5. uma pasta de alho, mostarda, raiz de rabanete, b\u00e1lsamo-do-peru e mirra; 6. duas laranjas e um lim\u00e3o por dia<\/p>\n<p>Em uma semana, os marinheiros que receberam as frutas c\u00edtricas estavam bem.<\/p>\n<p>Em um tratado sobre escorbuto que escreveu anos depois, em 1753, Lind descreveu seu ensaio cl\u00ednico em detalhes, concluindo que &#8220;os resultados dos experimentos foi que laranjas e lim\u00f5es foram os rem\u00e9dios mais eficazes para essa enfermidade no mar&#8221;.<\/p>\n<p>O que Lind fez foi criar grupos em condi\u00e7\u00f5es experimentais de ambiente e tempo controladas, uma pr\u00e9via do que se faz hoje em dia.<\/p>\n<p>Mas demorou para que a medicina adotasse formalmente os ensaios cl\u00ednicos randomizados para produzir evid\u00eancias. A era dos ensaios cl\u00ednicos s\u00f3 come\u00e7ou mesmo nos anos 1970, 1980 e 1990, diz Jarry. &#8220;Antes disso, era mais baseada em emin\u00eancia do que em evid\u00eancia. Ou seja, m\u00e9dicos mais velhos com muita fama eram muito respeitados por sua experi\u00eancia cl\u00ednica e pelas coisas que tinham a dizer.&#8221;<\/p>\n<figure style=\"width: 624px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13DA3\/production\/_87851318_h4120129-portrait_of_james_lind,_1716-1794-spl.jpg\" alt=\"James Lind (1716-1794) mostrou que frutas na dieta preveniam o escorbuto\" width=\"624\" height=\"351\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">James Lind (1716-1794) mostrou que frutas c\u00edtricas na dieta preveniam o escorbuto. Foto: SCIENCE PHOTO LIBRARY<\/figcaption><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><\/figure>\n<p>&#8220;O problema com isso \u00e9 que pode haver muito vi\u00e9s j\u00e1 que, se voc\u00ea \u00e9 um m\u00e9dico, pacientes que n\u00e3o tiveram bons resultados com o tratamento prescrito por voc\u00ea podem n\u00e3o voltar mais.&#8221;<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, segundo Jarry, a medicina passou, h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, por uma revolu\u00e7\u00e3o, dando espa\u00e7o para um tipo de abordagem que \u00e9 conhecido como medicina baseada em evid\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, testamos hip\u00f3teses de forma rigorosa e objetiva, por meio de ensaios cl\u00ednicos. Quando isso passou a ser feito, testes com interven\u00e7\u00f5es usadas at\u00e9 em ent\u00e3o mostraram que elas eram neutras ou at\u00e9 danosas e, por isso, v\u00e1rios tratamentos foram revertidos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 bom testar nossas premissas de formas rigorosas porque o c\u00e9rebro humano pode nos levar a pensar que algo est\u00e1 funcionando sem que de fato esteja.&#8221;<\/p>\n<p>Um dos m\u00e9dicos fundadores da medicina baseada em evid\u00eancias tamb\u00e9m foi um escoc\u00eas, 200 anos depois de Lind. Archie Cochrane (1909-1988) esteve com as for\u00e7as brit\u00e2nicas na Segunda Guerra e foi capturado em Creta, na Gr\u00e9cia. Ent\u00e3o, como prisioneiro de guerra, trabalhou em campos de concentra\u00e7\u00e3o controlados pelos alem\u00e3es. Em um em Salonica, na Gr\u00e9cia, ele fez seu primeiro ensaio cl\u00ednico randomizado para investigar a grande incid\u00eancia de edema entre os prisioneiros.<\/p>\n<p>Ele comprou suplementos de vitamina C e de fermento no mercado ilegal do campo, selecionou 20 prisioneiros de maneira aleat\u00f3ria e os dividiu pela metade. O primeiro grupo recebeu por\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de fermento, e o segundo grupo, vitamina C. Os prisioneiros que receberam fermento melhoraram. A conclus\u00e3o seria de que a prote\u00edna presente no fermento combatia a desnutri\u00e7\u00e3o dos doentes, eliminando o edema. Mas o pr\u00f3prio Cochrane criticou seu ensaio cl\u00ednico randomizado, dizendo que a sorte contribuiu muito para seu sucesso, e que seu teste teve uma qualidade baixa.<\/p>\n<p>De qualquer forma, aquele foi um dos primeiros ensaios cl\u00ednicos randomizados e controlados, algo que era quase desconhecido para a comunidade m\u00e9dica at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Em ensaios cl\u00ednicos, pacientes s\u00e3o divididos em grupos de pessoas que recebem ou n\u00e3o uma interven\u00e7\u00e3o com o objetivo de avaliar seus efeitos. A ideia \u00e9 controlar o m\u00e1ximo de vari\u00e1veis poss\u00edvel, com todas iguais, exceto aquela que est\u00e1 sendo testada. O que Lind e Cochrane fizeram foi refinado a partir de novos conhecimentos e, hoje, o que se faz tem mais rigor e cuidado.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Pir\u00e2mide de evid\u00eancia<\/h2>\n<p>Para entender que tipos de m\u00e9todos trazem evid\u00eancias mais robustas, hoje temos o que se chama de &#8220;pir\u00e2mide de evid\u00eancias&#8221;. Diferentes tipos de estudos resultam em graus diferentes de evid\u00eancia. Se uma evid\u00eancia aned\u00f3tica n\u00e3o traz evid\u00eancia alguma, por exemplo, resultados de ensaios cl\u00ednicos trazem evid\u00eancias robustas.<\/p>\n<p>No topo da pir\u00e2mide, est\u00e3o os estudos que representam evid\u00eancias com maior rigor, qualidade e confiabilidade. Ou seja, quanto mais perto do topo da pir\u00e2mide, mais precisos, confi\u00e1veis e com menor chance de erros estat\u00edsticos ou vieses causados por diferentes vari\u00e1veis s\u00e3o os estudos.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 um dogma, e pode haver ordens um pouco diferentes, mas, como um todo, \u00e9 um bom princ\u00edpio para as ci\u00eancias biom\u00e9dicas&#8221;, diz Jarry.<\/p>\n<p>Na parte inferior desta pir\u00e2mide est\u00e3o &#8220;dados sujos, produzidos sem qualquer tipo de controle ou interven\u00e7\u00e3o, sem saber se h\u00e1 outros fatores que poderiam ter influenciado o resultado&#8221;, diz Jarry. S\u00e3o coisas como as anedotas, ou ent\u00e3o &#8220;opini\u00f5es de especialistas&#8221;. &#8220;Pode ser interessante, mas n\u00e3o h\u00e1 uma evid\u00eancia por tr\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>Acima, est\u00e3o os relatos de casos, &#8220;algu\u00e9m que relate que recebeu um ou mais pacientes, tratou deles com um medicamento e o resultado foi x&#8221;. &#8220;Podem levar a hip\u00f3teses interessantes&#8221;, diz Jarry. Mas ainda n\u00e3o produzem evid\u00eancias robustas.<\/p>\n<p>Depois desses dois n\u00edveis est\u00e3o os estudos observacionais \u2014 e a\u00ed o n\u00edvel de evid\u00eancia come\u00e7a a melhorar. Esses estudos costumam olhar para o passado e verificar o que aconteceu. S\u00e3o feitos sem interven\u00e7\u00f5es, portanto, comparando pacientes que tiveram um tratamento a pacientes que tiveram um tratamento diferente, por exemplo. &#8220;Mas pode haver vari\u00e1veis, vieses ou raz\u00f5es para o tratamento desconhecidas para os autores do estudo&#8221;, diz Jarry.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 os estudos observacionais que olham para o futuro e, nestes, \u00e9 poss\u00edvel garantir que os grupos analisados sejam essencialmente os mesmos antes do estudo come\u00e7ar. Depois, observ\u00e1-los ao longo do tempo e analisar os resultados. Mas, porque ainda \u00e9 observacional, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel decidir quem vai receber a interven\u00e7\u00e3o. E porque isso n\u00e3o \u00e9 definido por quem est\u00e1 conduzindo o estudo, pode haver outros fatores que as influenciam a tomar essas decis\u00f5es. Ent\u00e3o, as evid\u00eancias produzidas por estudos assim podem sugerir caminhos, mas n\u00e3o produzir evid\u00eancias com poder cient\u00edfico suficiente para comprovar se um rem\u00e9dio \u00e9 ben\u00e9fico ou n\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p>Acima dos estudos observacionais e com maior poder cient\u00edfico est\u00e3o os ensaios cl\u00ednicos randomizados. Pela primeira vez na pir\u00e2mide, h\u00e1 uma interven\u00e7\u00e3o dos cientistas conduzindo o estudo, com o maior controle de vari\u00e1veis. E a forma como esses estudos cl\u00ednicos randomizados s\u00e3o desenhados pode dar ainda mais robustez \u00e0s evid\u00eancias finais.<\/p>\n<p>Nesse tipo de estudo, pacientes s\u00e3o selecionados para diferentes grupos de forma aleat\u00f3ria. A ideia \u00e9 manter a maior semelhan\u00e7a poss\u00edvel entre os grupos, considerando fatores com idade dos participantes, sexo ou gravidade da doen\u00e7a, por exemplo. Placebos tamb\u00e9m podem ser usados como forma de controle, evitando que grupos saibam se est\u00e3o tomando o medicamento ou n\u00e3o. Os ensaios tamb\u00e9m costumam ser duplo-cegos, em que nem paciente nem profissional de sa\u00fade sabem em que grupo est\u00e1 o paciente ou se o tratamento que est\u00e1 recebendo \u00e9 de fato o tratamento ou o placebo. Isso elimina o vi\u00e9s que profissionais de sa\u00fade podem ter.<\/p>\n<p>Com isso, temos os ensaios cl\u00ednicos randomizados controlados com placebo e duplo-cegos, que podem produzir evid\u00eancias robustas. Mas esses estudos precisam passar antes por avalia\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. &#8220;Se voc\u00ea suspeita que algo pode causar danos a pacientes, e quer controlar isso, voc\u00ea n\u00e3o pode&#8221; diz Jarry. As avalia\u00e7\u00f5es \u00e9ticas evitam que produtos reconhecidamente t\u00f3xicos ou tratamentos sabidamente piores dos que os dispon\u00edveis no momento sejam ministrados a pacientes.<\/p>\n<p>Por fim, no topo da pir\u00e2mide est\u00e3o as revis\u00f5es sistem\u00e1ticas e as meta-an\u00e1lises. &#8220;Se voc\u00ea tiver cinco estudos bem-feitos que apontam para a mesma dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que essa seja a resposta&#8221;, explica Jarry. Ou seja, as revis\u00f5es sistem\u00e1ticas juntam e analisam cada estudo feito sobre um assunto em particular, e as meta-an\u00e1lises produzem resultados num\u00e9ricos de todos os estudos inclu\u00eddos em conjunto, podendo dar diferentes pesos a cada estudo, dependendo de sua robustez, e produzindo uma an\u00e1lise estat\u00edstica sobre tudo.<\/p>\n<p>&#8220;E temos que lembrar tamb\u00e9m que as meta-an\u00e1lises tamb\u00e9m podem ser abusadas e podem ser v\u00edtimas de &#8216;lixo&#8217;. Se todos os estudos levados em conta por uma meta-an\u00e1lise forem mal-feitos, a meta-an\u00e1lise tamb\u00e9m ser\u00e1 mal-feita. Ou seja, n\u00e3o podemos confiar em meta-an\u00e1lises de forma cega porque ela n\u00e3o ser\u00e1 necessariamente boa&#8221;, diz Jarry. &#8220;Mas elas est\u00e3o no topo da pir\u00e2mide, e podem extrair de todos os estudos a melhor resposta poss\u00edvel para uma quest\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>E quantas pessoas s\u00e3o necess\u00e1rias para um estudo confi\u00e1vel? &#8220;Quanto mais pessoas, melhor. Cem pessoas s\u00e3o melhores que dez, mil pessoas s\u00e3o melhores que cem, dez mil pessoas s\u00e3o melhores que mil, e por a\u00ed vai. Os cientistas fazem uma an\u00e1lise de &#8216;poder&#8217; cient\u00edfico. Isso ajuda a definir quantas pessoas precisam recrutar para que um estudo avalie de fato o efeito de uma interven\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Jarry.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 lembrar que um relato individual n\u00e3o prova nada, e dizer que B aconteceu por causa de A sem um estudo cient\u00edfico s\u00e9rio sobre isso n\u00e3o est\u00e1 correto. Uma dor de cabe\u00e7a, afinal, pode passar sozinha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Juliana Gragnani- @julianagragnani &#8211; BBC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o estava com dor de cabe\u00e7a. Jo\u00e3o tomou suco de laranja. A dor de cabe\u00e7a de Jo\u00e3o passou. Podemos afirmar que a dor de cabe\u00e7a de Jo\u00e3o passou porque ele tomou suco de laranja? A resposta \u00e9 n\u00e3o. Dizer que sim \u00e9 criar uma falsa correla\u00e7\u00e3o de causa e efeito. 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