{"id":3439,"date":"2019-04-27T19:22:13","date_gmt":"2019-04-27T22:22:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=3439"},"modified":"2019-04-27T19:23:15","modified_gmt":"2019-04-27T22:23:15","slug":"a-luta-dos-guerreiros-wao-contra-as-petroleiras-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/a-luta-dos-guerreiros-wao-contra-as-petroleiras-na-amazonia\/","title":{"rendered":"A luta dos guerreiros Wao contra as petroleiras na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<div class=\"line textcontent_img watermark\">\n<p>As lan\u00e7as e os dardos envenenados est\u00e3o \u00e0 m\u00e3o, sempre prontos contra os invasores. Mas, desta vez, o povo ind\u00edgena Waorani do Equador, que vive na floresta amaz\u00f4nica, luta para que os ju\u00edzes &#8220;kowori&#8221; (estranhos) impe\u00e7am a temida chegada das companhias petrol\u00edferas.<\/p>\n<p>Ca\u00e7adores por tradi\u00e7\u00e3o, os waorani (ou huaorani) veem a si pr\u00f3prios como guardi\u00e3es da floresta. Como povo guerreiro, fizeram valer suas armas ancestrais na defesa de seus c\u00f3digos de honra, mas, sobretudo, do territ\u00f3rio pouco explorado que habitam na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<\/div>\n<p>&#8220;Voc\u00ea quer que petroleiras entrem para matar a selva, acabar com territ\u00f3rio limpo, com \u00e1gua limpa?&#8221;.<\/p>\n<p>Com a ajuda de uma int\u00e9rprete, Debanca, uma dirigente que usa um penacho e o rosto pintado de vermelho, responde com perguntas uma equipe da AFP que chegou at\u00e9 a remota aldeia de Nemompare.<\/p>\n<p>L\u00e1, pelo menos 50 waos vivem em cabanas e casas de madeira na beira do rio Curaray. A maioria anda seminua em meio ao verde e \u00e0 sombra de \u00e1rvores gigantes que dominam o entorno. Outros vestem bermuda e camiseta.<\/p>\n<p>Seu assentamento est\u00e1 a 40 minutos de avi\u00e3o de Shell, o povoado que adotou o nome da multinacional europeia que operou na prov\u00edncia de Pastaza e \u00e9 s\u00edmbolo da penetra\u00e7\u00e3o da atividade petroleira na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Com o apoio de outros waos, os ind\u00edgenas de Nemompare e seus arredores foram \u00e0 Justi\u00e7a para impedir a entrada das petroleiras e tiveram sucesso.<\/p>\n<p>Um tribunal de Puyo, capital de Pastaza, decretou nesta sexta-feira a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria da entrada das petroleiras no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os ju\u00edzes determinaram que ocorreu a viola\u00e7\u00e3o do direito constitucional \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e \u00e0 consulta pr\u00e9via, livre e informada sobre os planos de explora\u00e7\u00e3o de recursos n\u00e3o renov\u00e1veis em suas terras.<\/p>\n<p>A corte determinou que o Estado realize uma nova consulta, aplicando os padr\u00f5es fixados pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos (Corte IDH), com sede em San Jos\u00e9.<\/p>\n<div class=\"line textcontent_img watermark\">\n<div class=\"w50 right ml1\">\n<figure style=\"width: 449px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"w100\" src=\"https:\/\/www.afp.com\/sites\/default\/files\/nfs\/diff-intra\/portugues\/jornal\/america-latina\/2e2edc28b17f87f7dd2868ee73229d872fd14388.jpg\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"299\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ind\u00edgenas waorani do Equador cantam na cachoeira sagrada Teata, perto do povoado Nemompare, na beira do rio Curaray, na prov\u00edncia de Pastaza, Equador, em 14 de abril de 2019. Reprodu\u00e7\u00e3o: AFP \/ RODRIGO BUENDIA<\/figcaption><\/figure>\n<p><span class=\"copyright_under\">\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p>Embora o petr\u00f3leo mova a economia equatoriana desde 1970, a explora\u00e7\u00e3o deixa uma pegada de destrui\u00e7\u00e3o ainda vis\u00edvel na floresta: fontes de \u00e1gua polu\u00eddas, po\u00e7os de res\u00edduos escuros e obras que afastaram a fauna.<\/p>\n<p>E, talvez o mais paradoxal, mergulhou as popula\u00e7\u00f5es locais na pobreza.<\/p>\n<\/div>\n<p>&#8211; Lan\u00e7as, machetes e machados &#8211;<\/p>\n<p>Em Nemompare, os wao armazenam a \u00e1gua da chuva em enormes tanques para seu consumo, se abastecem de energia com pain\u00e9is solares e dormem em redes.<\/p>\n<p>Embora tenham aprendido a escrever com os kowori, n\u00e3o usam papel: agarram-se ao wao terere, sua l\u00edngua, para sobreviver.<\/p>\n<p>Sentada perto do fogo, no centro de uma cabana, Wi\u00f1a Omaca ilustra os \u00e2nimos de resist\u00eancia de seu povo. &#8220;N\u00e3o s\u00f3 &#8216;tapaa&#8217; (lan\u00e7as), est\u00e3o prontas &#8216;campa&#8217; e &#8216;aweka&#8217; (machetes e machados)&#8221;.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se antecipa a falar de guerra, mas os wao podem transformar sua casa em um territ\u00f3rio hostil para as petroleiras.<\/p>\n<p>&#8220;Que fique claro: defendemos nossa selva, nossa cultura e nosso direito com nossa vida&#8221;, diz Nemonte Nenquimo, presidente do Conselho Waorani de Pastaza (Conconawep) e promotora da demanda.<\/p>\n<p>Com 4.800 membros, os waorani s\u00e3o donos de 800.000 hectares de selva em Pastaza, Napo e Orellana, uma pequena parte da bacia amaz\u00f4nica equatoriana. A lei reconhece a jurisdi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, mas mant\u00e9m o poder do Estado sobre o subsolo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um m\u00eas, o Conconawep apresentou uma demanda para que se exclua parte do territ\u00f3rio wao de uma futura licita\u00e7\u00e3o. Para eles, est\u00e3o em jogo 180.000 hectares que representam menos de 1% da superf\u00edcie do Equador.<\/p>\n<p>O governo afirma ter autoriza\u00e7\u00e3o para chamar as petroleiras, gra\u00e7as a uma consulta realizada em 2012. No entanto, por meio de sua int\u00e9rprete, os ind\u00edgenas indicam que funcion\u00e1rios do governo chegaram, ent\u00e3o, de avi\u00e3o e obtiveram o aval com enganos, comida e refrigerantes.<\/p>\n<p>&#8211; Mais v\u00edtimas que guerreiros &#8211;<\/p>\n<div class=\"line textcontent_img watermark\">\n<div class=\"w50 left mr1\">\n<figure style=\"width: 768px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"w100\" src=\"https:\/\/www.afp.com\/sites\/default\/files\/nfs\/diff-intra\/portugues\/jornal\/america-latina\/e770ff57e6d65bb63095b8b04ba27b85fe47b423.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"511\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Ind\u00edgenas waorani no povoado Nemompare, na beira do rio Curaray, na prov\u00edncia de Pastaza, Equador, em 14 de abril de 2019. Reprodu\u00e7\u00e3o: AFP \/ RODRIGO BUENDIA<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Por enquanto, a luta est\u00e1 nos tribunais, mas a hist\u00f3ria dos wao est\u00e1 atravessada por epis\u00f3dios violentos que fazem temer sua rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por exemplo, seus dois cl\u00e3s n\u00f4mades, taromenane e tagaeri, em isolamento volunt\u00e1rio, enfrentaram a morte nas profundezas da selva.<\/p>\n<\/div>\n<p>&#8220;N\u00e3o tiveram uma rela\u00e7\u00e3o amistosa&#8221;, segundo Miguel \u00c1ngel Cabodevilla, autor do livro &#8220;Os Huaorani na hist\u00f3ria dos povos do Oriente&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2013, os wao que est\u00e3o em contato com o exterior se vingaram dos taromenane pela morte de dois idosos. Houve entre 20 e 30 falecidos, segundo os l\u00edderes nativos. As autoridades reconheceram a matan\u00e7a, mas nunca tiveram acesso aos corpos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m feriram com lan\u00e7as os madeireiros que os atacaram a tiros e invadiram suas terras.<\/p>\n<p>Mas a &#8220;viol\u00eancia principal foi exercida contra eles, quase desde sempre, e com maior agressividade&#8221;, enfatiza Cabodevilla.<\/p>\n<p>&#8220;Roubaram suas terras, perseguiram-nos e os mataram, escravizaram-nos e, agora, desfruta-se de seus bens no subsolo sem nenhuma compensa\u00e7\u00e3o adequada&#8221;, diz \u00e0 AFP.<\/p>\n<p>Por isso, muitos wao expressam desconfian\u00e7a ap\u00f3s anos de maus-tratos e de manipula\u00e7\u00e3o de governos, petroleiros, seringueiros e madeireiros, que, al\u00e9m disso, derivaram em brigas e divis\u00f5es internas.<\/p>\n<p>Peke Tokare, um &#8220;pekenani&#8221; (idoso s\u00e1bio), aponta para a estampa de sua camiseta para resumir o lema waorani: &#8220;Monito ome goronte enamai&#8221;, que significa &#8220;nosso territ\u00f3rio n\u00e3o se vende&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AFP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As lan\u00e7as e os dardos envenenados est\u00e3o \u00e0 m\u00e3o, sempre prontos contra os invasores. 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