{"id":11279,"date":"2024-01-21T10:00:41","date_gmt":"2024-01-21T13:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=11279"},"modified":"2024-01-20T17:00:23","modified_gmt":"2024-01-20T20:00:23","slug":"as-duas-faces-do-imperialismo-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/as-duas-faces-do-imperialismo-global\/","title":{"rendered":"As duas faces do imperialismo global"},"content":{"rendered":"<div class=\"p-20px-b\">\n<div class=\"text-medium-large sm-text-medium p-10px-tb\" style=\"text-align: center;\"><strong>Continua sendo chocante e inadmiss\u00edvel saber que 20% da popula\u00e7\u00e3o mundial controlem 70% da riqueza<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row flex-align-middle\">\n<div class=\"c-lg-6 c-md-6 c-sm-6 c-xs-6\">\n<div class=\"blog-details-text sm-m-60px-b xs-m-40px-b sm-p-15px-lr last-p-no-m-b\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"https:\/\/iclnoticias.com.br\/ainda-mais-desigual\/\">relat\u00f3rio da Oxfam sobre desigualdade global<\/a>, apresentado em Davos na Su\u00ed\u00e7a, nos lembra fatos fundamentais que foram naturalizados como a chuva ou o nascer do Sol. Mas, apesar de tudo, continua sendo chocante e inadmiss\u00edvel saber que\u00a0<a href=\"https:\/\/iclnoticias.com.br\/desigualdade-e-o-maior-problema-do-planeta-afirma-diretora-da-oxfam\/\">20% da popula\u00e7\u00e3o mundial, do assim chamado Norte global, ou seja, a Europa e os Estados Unidos, controlem 70% da riqueza planet\u00e1ria<\/a>.<\/p>\n<p>Hoje em dia, essa disparidade criada no decorrer de s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e dom\u00ednio militar parece n\u00e3o incomodar a mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o era assim h\u00e1 50 ou 60 anos atr\u00e1s. Jango, por exemplo, se tornou um alvo do governo americano ao procurar regular as remessas de lucro de empresas americanas para o exterior. Isso era visto como um dado essencial do desenvolvimento de uma ind\u00fastria e de um mercado interno pujante. E na realidade era e ainda \u00e9 verdade. Mas ningu\u00e9m mais tem como bandeira partid\u00e1ria e projeto governamental uma rea\u00e7\u00e3o articulada a esse tipo de dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Tr\u00eas fatores concorrem para que assim o seja. O primeiro \u00e9 o hist\u00f3rico de golpes de Estado no Sul global de modo a destronar eventuais governos nacionalistas do poder em favor de marionetes do imp\u00e9rio americano. O segundo \u00e9 a extraordinariamente bem-sucedida m\u00e1quina da ind\u00fastria cultural americana que incute, de modo subliminar, n\u00e3o apenas um estilo de vida, mas toda uma justifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do dom\u00ednio f\u00e1tico.<\/p>\n<p>Isso tudo \u00e9 feito com elevadas cargas de sedu\u00e7\u00e3o e desejo, trocando balas e bombas por Brad Pitt e Marilyn Monroe. Cerca de 90% dos filmes de Hollywood, assim como dos atuais streamings, repetem estere\u00f3tipos \u2013 como dos mexicanos e latinos como traficantes e ladroes e \u00e1rabes como terroristas \u2013 colonizando de modo pr\u00e9-reflexivo e sem distanciamento cr\u00edtico nossa capacidade de avaliar e refletir.<\/p>\n<p>Assim, \u201cn\u00f3s\u201d passamos a acreditar que eles \u201cmerecem\u201d o que possuem j\u00e1 que s\u00e3o bonitos, inteligentes e honestos, enquanto o Sul global \u00e9 feio, corrupto e burro. Em grande medida, \u00e9 por conta do seu enorme aparato de doutrina\u00e7\u00e3o cultural, que envolve desde universidades at\u00e9 gibis, que os EUA podem se dar ao luxo de serem um \u201cimp\u00e9rio informal\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, que faz de conta que n\u00e3o \u00e9 imp\u00e9rio, posto que, quase sempre, abdica do uso cont\u00ednuo da viol\u00eancia material direta em nome de uma autonomia relativa do campo pol\u00edtico das col\u00f4nias. \u00c9 o predom\u00ednio da viol\u00eancia simb\u00f3lica, que faz com que os oprimidos se vejam como inferiores, que permite o dom\u00ednio indireto do imperialismo \u201csoft\u201d americano.<\/p>\n<p>\u00c9 essa circunst\u00e2ncia que p\u00f5e em jogo o terceiro e decisivo elemento que possibilita tamanha apropria\u00e7\u00e3o de riqueza alheia sem rea\u00e7\u00e3o aparente. \u00c9 que o imperialismo informal precisa da coopera\u00e7\u00e3o de uma elite subordinada nos pa\u00edses sat\u00e9lites. O imperialismo n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses, mas sim uma rela\u00e7\u00e3o entre classes sociais dominantes. Ele representa a uni\u00e3o das elites metropolitanas com as elites nativas nacionais. Essa uni\u00e3o envolve tanto a divis\u00e3o do saque econ\u00f4mico sobre as popula\u00e7\u00f5es oprimidas quanto o compartilhamento do mesmo vocabul\u00e1rio da viol\u00eancia simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>O tema da corrup\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 uma pista de como se d\u00e1 o funcionamento deste tipo de viol\u00eancia que de suave \u2013 \u201csoft\u201d \u2013 s\u00f3 tem o nome. \u00c9 cren\u00e7a corrente, seja na ci\u00eancia hegem\u00f4nica mundial, seja no senso comum planet\u00e1rio, que a corrup\u00e7\u00e3o dita sist\u00eamica \u00e9 reservada ao Sul global, se referindo apenas \u00e1 Am\u00e9rica Latina, a \u00c1frica e a Asia, como se a corrup\u00e7\u00e3o no \u201chonesto\u201d Norte global fosse um mero deslize individual.<\/p>\n<p>A desqualifica\u00e7\u00e3o moral do oprimido \u00e9 a arma principal de qualquer processo de domina\u00e7\u00e3o na medida em que desumaniza os oprimidos, legitimando o saque econ\u00f4mico para algozes e v\u00edtimas. Foi mais ou menos o que aconteceu no Brasil da Lava Jato. O povo brasileiro foi levado a pensar, pela for\u00e7a desses preconceitos, do seguinte modo: \u201cComo os nossos pol\u00edticos s\u00e3o corruptos, vamos dar o mercado da Petrobras e da Odebrecht aos americanos que s\u00e3o t\u00e3o honestos e inteligentes\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia simb\u00f3lica \u00e9 t\u00e3o eficaz porque ela literalmente imbeciliza o oprimido.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as elites nativas se utilizam do mesmo repert\u00f3rio para criminalizar o voto popular e a pol\u00edtica. O Brasil ilustra esse fato de modo exemplar. A cria\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de povo corrupto e eleitor de corruptos se apropria e complementa o veneno simb\u00f3lico imperialista, destilado todos os dias de diversas maneiras em nossos cora\u00e7\u00f5es e mentes. \u00c9 por conta disso que tamanha desigualdade global \u2013 e nacional \u2013 possa ser naturalizada e tratada como a previs\u00e3o de chuva para os pr\u00f3ximos dias. Como um fato sobre o qual n\u00e3o temos qualquer possibilidade de controle. Quando se atinge este limite, a domina\u00e7\u00e3o f\u00e1tica passa a ser vista como a \u00fanica realidade poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Por Jess\u00e9 Souza &#8211; ICL not\u00edcias<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"m-8-t text-center\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continua sendo chocante e inadmiss\u00edvel saber que 20% da popula\u00e7\u00e3o mundial controlem 70% da riqueza &nbsp; O\u00a0relat\u00f3rio da Oxfam sobre desigualdade global, apresentado em Davos na Su\u00ed\u00e7a, nos lembra fatos fundamentais que foram naturalizados como a chuva ou o nascer do Sol. 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