{"id":11265,"date":"2024-01-17T14:28:02","date_gmt":"2024-01-17T17:28:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=11265"},"modified":"2024-01-17T14:28:02","modified_gmt":"2024-01-17T17:28:02","slug":"donos-de-fazenda-de-terra-e-paixao-desviaram-curso-de-rio-e-criaram-peixes-sem-licenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/donos-de-fazenda-de-terra-e-paixao-desviaram-curso-de-rio-e-criaram-peixes-sem-licenca\/","title":{"rendered":"Donos de fazenda de \u2018Terra e Paix\u00e3o\u2019 desviaram curso de rio e criaram peixes sem licen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div class=\"p-20px-b\">\n<div class=\"text-medium-large sm-text-medium p-10px-tb\">Os rios de Deod\u00e1polis (MS) s\u00e3o amea\u00e7ados pelos donos do mesmo im\u00f3vel rural em que a novela foi gravada<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"c-lg-6 c-md-6 c-sm-6 c-xs-6\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em sua \u00faltima semana de exibi\u00e7\u00e3o, a novela \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d, da Rede Globo, conquistou o p\u00fablico da teledramaturgia e garantiu o retorno dos bons \u00edndices de audi\u00eancia \u00e0 faixa das nove, ap\u00f3s a emissora amargar o pior resultado da hist\u00f3ria com sua antecessora, \u201cTravessia\u201d. Ambientada no munic\u00edpio fict\u00edcio de Nova Primavera, no Mato Grosso do Sul, a trama de Walcyr Carrasco narra a epopeia do cl\u00e3 La Selva, liderado pelo impiedoso latifundi\u00e1rio Ant\u00f4nio (Tony Ramos), cujo filho Caio (Cau\u00e3 Raymond) se apaixona por sua rival, a professora Aline (B\u00e1rbara Reis).<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do casal de protagonistas \u00e9 constru\u00edda logo nos primeiros epis\u00f3dios, quando Caio surpreende a amada tomando um banho no rio que cruza sua propriedade, alvo da ambi\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio La Selva. Algumas semanas depois, o herdeiro ajuda Aline a recuperar o acesso \u00e0 \u00e1gua, drenada a mando do personagem de Tony Ramos para impedir que a rival irrigasse sua colheita.<\/p>\n<p>Na vida real, os rios de Deod\u00e1polis (MS) s\u00e3o amea\u00e7ados pelos donos do mesmo im\u00f3vel rural em que \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d foi gravada. A Fazenda Annalu, de 1.768 hectares, est\u00e1 em nome de Aur\u00e9lio Rolim Rocha \u2014 o Lelinho \u2014, diretor do grupo Valor Commodities e respons\u00e1vel por um dos maiores projetos de piscicultura do Mato Grosso do Sul. Ao todo, s\u00e3o 100 hectares de l\u00e2mina d\u2019\u00e1gua, com capacidade instalada para produzir 4 mil toneladas de peixes por ano, distribu\u00eddos no mercado interno e externo. O carro-chefe s\u00e3o as til\u00e1pias, uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica.<\/p>\n<p>Na Fazenda Annalu, pelo menos 37 tanques usados para a cria\u00e7\u00e3o de peixes est\u00e3o sobrepostos a um afluente da margem direita do Rio Dourados, que margeia o im\u00f3vel a oeste, dentro da \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente (APP). Al\u00e9m do impacto ambiental, a atividade foi praticada sem licenciamento por pelo menos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>De acordo com a localiza\u00e7\u00e3o dos tanques, reproduzidos nos mapas que comp\u00f5em os relat\u00f3rios de vistoria, \u00e9 poss\u00edvel perceber que os criadouros foram escavados no leito do rio, alterando a morfologia do corpo h\u00eddrico.<\/p>\n<p>Em 2021, o Instituto do Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul (Imasul) emitiu a Licen\u00e7a de Opera\u00e7\u00e3o n\u00ba 76 para cria\u00e7\u00e3o de 200 toneladas de peixes por ano na fazenda. O documento confirma que o rio onde est\u00e3o os tanques funciona como corpo receptor dos efluentes da atividade de piscicultura. Os reflexos ambientais dos rejeitos gerados pela cria\u00e7\u00e3o de peixes alteram a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da \u00e1gua, al\u00e9m de gerar ac\u00famulo de mat\u00e9ria org\u00e2nica, entre outros poluentes, que, neste caso, acabam desaguando no Rio Dourados.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise cartogr\u00e1fica da propriedade, realizada pelo n\u00facleo de pesquisas do De Olho nos Ruralistas, confirmou que as coordenadas geogr\u00e1ficas dos locais escavados para a implanta\u00e7\u00e3o dos tanques coincidem com o curso do rio que atravessa a propriedade. Ao todo, a obra de instala\u00e7\u00e3o dos tanques abrangeu uma \u00e1rea inundada de aproximadamente 46 hectares.<\/p>\n<div id=\"attachment_7841\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7841\" src=\"https:\/\/icln.b-cdn.net\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/WhatsApp-Image-2024-01-16-at-23.43.33.jpeg\" alt=\"\" width=\"1503\" height=\"899\" aria-describedby=\"caption-attachment-7841\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-7841\" class=\"wp-caption-text\"><em>Mapa mostra localiza\u00e7\u00e3o de infraestrutura da Fazenda Annalu, onde foi gravada \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d. (Cartografia: Eduardo Carlini\/De Olho nos Ruralistas)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o oriundas do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) elaborado em mar\u00e7o de 2022 pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Mato Grosso do Sul (MPMS) e firmado pelo empres\u00e1rio Lelinho Rocha. No TAC, \u00e9 listada uma s\u00e9rie de irregularidades ambientais na \u00e1rea da fazenda, reveladas por este observat\u00f3rio na reportagem: \u201cFazenda de \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d tem desmatamento de reserva e despejo ilegal de agrot\u00f3xicos\u201d.<\/p>\n<p>De Olho nos Ruralistas questionou o grupo Valor Commodities e a Rede Globo sobre os passivos ambientais da Fazenda Annalu. At\u00e9 o fechamento da reportagem n\u00e3o houve retorno.<\/p>\n<p><strong>TANQUES OPERAVAM SEM LICENCIAMENTO AMBIENTAL<\/strong><\/p>\n<p>Em junho de 2019, quando foi realizado o primeiro laudo de vistoria t\u00e9cnica do Minist\u00e9rio P\u00fablico, o licenciamento para a atividade de piscicultura estava vencido havia nove anos, desde janeiro de 2010. Durante esse per\u00edodo, o im\u00f3vel passou por v\u00e1rias m\u00e3os.<\/p>\n<div id=\"attachment_7842\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7842\" src=\"https:\/\/icln.b-cdn.net\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/WhatsApp-Image-2024-01-16-at-23.43.33-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"1225\" height=\"892\" aria-describedby=\"caption-attachment-7842\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-7842\" class=\"wp-caption-text\"><em>Laudo de 2019 identificou irregularidade em dreno que abastece tanques da Fazenda Annalu. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/MPMS)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Adquirida em 2003 por Nilton Rocha Filho, av\u00f4 dos atuais propriet\u00e1rios, a Fazenda Annalu foi vendida dois anos depois para a comercializadora de gr\u00e3os Granol, pelo valor de R$ 2,95 milh\u00f5es de reais. Em 2016, os netos do antigo propriet\u00e1rio, Aur\u00e9lio Rolim Rocha \u2014 conhecido como Nelinho \u2014 e Nilton Fernando Rocha Filho, readquiriram a propriedade por R$ 10 milh\u00f5es. Apenas em 2021, ap\u00f3s tr\u00eas anos operando sem licenciamento, Nelinho regularizou os tanques para a cria\u00e7\u00e3o de peixes.<\/p>\n<p>Apesar da altera\u00e7\u00e3o do curso do rio que passa pela propriedade, os danos causados pelos 37 tanques escavados na margem direita do Rio Dourados n\u00e3o s\u00e3o citados em nenhum dos relat\u00f3rios de vistoria juntados \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es dos poss\u00edveis danos ambientais na Fazenda Annalu.<\/p>\n<p>O TAC destaca ainda a exist\u00eancia de 54 drenos, com extens\u00f5es que variam entre 10 e 3.761 metros. Todos eles sem licenciamento. Essas estruturas s\u00e3o utilizadas tanto para a drenagem de terrenos alagados quanto para a capta\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos destinados \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o, pecu\u00e1ria e piscicultura.<\/p>\n<p>De acordo com um morador da regi\u00e3o, que preferiu n\u00e3o se identificar, a constru\u00e7\u00e3o dos drenos \u2014 que ele chama de diques \u2014 \u201cfez um estrago danado\u201d nas margens do rio. \u201cEu sei que fizeram um dique pra levar \u00e1gua pra irrigar os piv\u00f4s, um dique de uns de quatros metros de largura por cinco de profundidade\u201d, conta.<\/p>\n<div id=\"attachment_7843\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7843\" src=\"https:\/\/icln.b-cdn.net\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/WhatsApp-Image-2024-01-16-at-23.43.33-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"550\" aria-describedby=\"caption-attachment-7843\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-7843\" class=\"wp-caption-text\"><em>Investiga\u00e7\u00e3o de 2019 descobriu canais de drenagem instalados irregularmente em \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o permanente. (Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/MPMS)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><strong>JUSTIFICATIVA PARA ABERTURA DE DRENOS \u00c9 DESMENTIDA PELA PR\u00d3PRIA EMPRESA<\/strong><\/p>\n<p>Parte dos drenos identificados pelo laudo t\u00e9cnico do MPMS invade a \u00c1rea de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente (APP) do Rio Dourados. Segundo o relat\u00f3rio anexado ao TAC, a instala\u00e7\u00e3o de drenos \u00e9 comum na regi\u00e3o, sendo uma medida necess\u00e1ria para a agricultura em \u00e1reas frequentemente inund\u00e1veis e com presen\u00e7a de len\u00e7ol fre\u00e1tico superficial \u2014 o que, segundo o laudo de vistoria, \u00e9 o caso da Fazenda Annalu.<\/p>\n<div id=\"attachment_7844\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7844\" src=\"https:\/\/icln.b-cdn.net\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/WhatsApp-Image-2024-01-16-at-23.43.33-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"1228\" height=\"845\" aria-describedby=\"caption-attachment-7844\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-7844\" class=\"wp-caption-text\"><em>Imagem capturada por drone da \u00e1rea de APP, em outubro de 2023. (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/MPMS)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Apesar da justificativa, a disposi\u00e7\u00e3o das estruturas na propriedade demonstra que os drenos possuem utilidade diversa, uma vez que se estendem muito al\u00e9m da \u00e1rea inund\u00e1vel do solo.<\/p>\n<p>Outra contradi\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 drenagem na propriedade vem de um documento formulado pelos propriet\u00e1rios da Annalu. Um laudo produzido em 2018 por uma empresa contratada pelos fazendeiros para tentar comprovar a exist\u00eancia de Reserva Legal na fazenda, a LG Consultoria Ambiental, foi taxativo em afirmar que \u201cn\u00e3o h\u00e1 excesso de \u00e1gua em qualquer \u00e9poca do ano, em fun\u00e7\u00e3o da boa permeabilidade, porosidade e len\u00e7ol fre\u00e1tico muito profundo\u201d.<\/p>\n<p>Por meio de imagens de sat\u00e9lite de 2009, o MPMS p\u00f4de constatar que a instala\u00e7\u00e3o dos drenos na propriedade \u00e9 anterior a julho de 2008. Segundo o laudo de vistoria, a abertura de drenos no local altera as condi\u00e7\u00f5es naturais de satura\u00e7\u00e3o e encharcamento do solo.<\/p>\n<p>Para quem mora na regi\u00e3o, o impacto \u00e9 vis\u00edvel. \u201cTinha uns varj\u00e3o l\u00e1 que diz que nem sucuri passava, mas abriram tudo\u201d, lamenta um morador. Uma realidade ignorada pelas imagens id\u00edlicas de monocultura e maquin\u00e1rios agr\u00edcolas disseminada na novela \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*Imagem principal (Divulga\u00e7\u00e3o-Valor Commodities\/De Olho nos Ruralistas): fazenda de \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d abriga um complexo de piscicultura que operou por nove anos sem licenciamento<\/em><\/p>\n<p><strong>**Esta mat\u00e9ria \u00e9 de autoria de site parceiro, que se responsabiliza pelo conte\u00fado publicado.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por Tonsk Fialho e Carolina Bataier \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">De Olho nos Ruralistas<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os rios de Deod\u00e1polis (MS) s\u00e3o amea\u00e7ados pelos donos do mesmo im\u00f3vel rural em que a novela foi gravada &nbsp; Em sua \u00faltima semana de exibi\u00e7\u00e3o, a novela \u201cTerra e Paix\u00e3o\u201d, da Rede Globo, conquistou o p\u00fablico da teledramaturgia e garantiu o retorno dos bons \u00edndices de audi\u00eancia \u00e0 faixa das nove, ap\u00f3s a emissora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":11266,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-11265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11265"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11267,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11265\/revisions\/11267"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}