{"id":10542,"date":"2023-01-30T12:31:37","date_gmt":"2023-01-30T15:31:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/?p=10542"},"modified":"2023-01-30T12:31:37","modified_gmt":"2023-01-30T15:31:37","slug":"garimpo-ilegal-utilizou-base-da-funai-que-deveria-proteger-yanomami-mostra-oficio-inedito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalimprensasindical.com.br\/sitenovo\/garimpo-ilegal-utilizou-base-da-funai-que-deveria-proteger-yanomami-mostra-oficio-inedito\/","title":{"rendered":"Garimpo ilegal utilizou base da Funai que deveria proteger Yanomami, mostra of\u00edcio in\u00e9dito"},"content":{"rendered":"<p>Documento de 2021 cita helic\u00f3pteros clandestinos, homens armados e garimpo utilizando estrutura do governo dentro da TI<\/p>\n<p>Um documento obtido pela Ag\u00eancia P\u00fablica registra mais uma omiss\u00e3o do estado sob Jair Bolsonaro que deixou o territ\u00f3rio Yanomami, em Roraima, vulner\u00e1vel \u00e0 a\u00e7\u00e3o garimpeira ilegal. A mensagem \u00e9 do dia 31 de mar\u00e7o de 2021: \u201cHoje o fluxo de voos bateu todos os dias, passaram 30 avi\u00f5es e cinco helic\u00f3pteros. Cada dia que passa est\u00e1 aumentando\u201d.\u00a0A conversa registra colaboradores da Funai comentando entre si no WhatsApp a presen\u00e7a constante do garimpo na regi\u00e3o da Base de Prote\u00e7\u00e3o Etnoambiental (Bape) Serra da Estrutura, regi\u00e3o onde habitam os ind\u00edgenas isolados Moxihat\u00ebt\u00ebma th\u00ebp\u00eb, que est\u00e1 localizada ao norte de Roraima, na Terra Ind\u00edgena Yanomami.<\/p>\n<p>Os isolados Moxihat\u00ebt\u00ebma s\u00e3o o \u00fanico grupo em isolamento volunt\u00e1rio confirmado na TI pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai).<\/p>\n<p>Desde 2015, a Bape Serra da Estrutura estava desativada por falta de recursos, segundo o \u00f3rg\u00e3o indigenista. Mas em 2020, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) de Roraima ingressou com uma A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica contra a Uni\u00e3o, o Estado de Roraima e a Funai para obrigar o estado a agir em decorr\u00eancia do avan\u00e7o do garimpo ilegal em meio a pandemia de Covid-19.<\/p>\n<p>No ano passado, ainda sob Bolsonaro, a Funai disse que o sistema de prote\u00e7\u00e3o e monitoramento da regi\u00e3o vinha sendo operacionalizado pela Bape, que foi reativada no final de 2020. \u201cA iniciativa \u00e9 fundamental para a prote\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas isolados que vivem no local\u201d, disse o \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o documento obtido pela reportagem contradiz a Funai, \u00e0 \u00e9poca comandada pelo delegado da Pol\u00edcia Federal Marcelo Xavier. O texto revela que servidores da pr\u00f3pria Funai da regi\u00e3o pediam socorro \u00e0 Base de Prote\u00e7\u00e3o da Funai reativada em Roraima, que, em vez de servir \u00e0 prote\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, servia ao garimpo. O documento com o pedido de ajuda foi endere\u00e7ado ao Coordenador de Pol\u00edtica de Prote\u00e7\u00e3o e Localiza\u00e7\u00e3o de Povos Ind\u00edgenas Isolados da \u00e9poca e tem como assunto: \u201cSeguran\u00e7a da BAPE Serra da Estrutura, Terra Ind\u00edgena Yanomami\u201d. O texto relata que o territ\u00f3rio vinha sofrendo invas\u00f5es e amea\u00e7as \u201cagravadas por preocupante e recente epis\u00f3dio\u201d, ocorrido em 2021.<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] um helic\u00f3ptero (prefixo PR-LNL) pousou pr\u00f3ximo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o [da BAPE Serra da Estrutura]. Como normalmente as aeronaves utilizam o final da pista para retirada de garimpeiros, o Colaborador L.* aproximou-se da aeronave e notou que o piloto portava uma ARMA. O piloto informou que achou ter visto algum colaborador fazer um sinal para parada e, imaginando que pudessem estar precisando de alguma coisa, realizou o pouso. Diante da negativa do colaborador, o mesmo al\u00e7ou voo. Esclare\u00e7o que \u00e9 comum helic\u00f3pteros sobrevoarem a Bape e utilizarem o final da pista para pouso\u201d, diz trecho do documento.<\/p>\n<p>Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nDocumento de 2021 cita helic\u00f3pteros clandestinos, homens armados e garimpo<br \/>\nDiante do epis\u00f3dio, o documento registra que \u00e9 \u201cinadmiss\u00edvel a continuidade da BAPE Serra da Estrutura sem o devido apoio policial ou militar para refor\u00e7ar sua seguran\u00e7a e as atividades de prote\u00e7\u00e3o territorial no entorno, bem como garantir o bom funcionamento e incolumidade da equipe da Funai\u201d.<\/p>\n<p>O documento informa ainda que of\u00edcios foram encaminhados \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica e fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental para lidarem com a situa\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio registro da Funai informa que a movimenta\u00e7\u00e3o de aeronaves e garimpeiros nas proximidades da BAPE Serra da Estrutura \u201ctem aumentado de intensidade o que representa risco aos servidores e colaboradores da BAPE\u201d. O documento ainda revela que os invasores t\u00eam \u201ccirculado armados nas proximidades da BAPE e tentado aliciar funcion\u00e1rios da Funai\u201d. Fontes ouvidas pela reportagem disseram que a ajuda nunca veio.<\/p>\n<p>As imagens acima, obtidas pela reportagem, s\u00e3o de dois helic\u00f3pteros que utilizavam a base da Funai sem autoriza\u00e7\u00e3o, supostamente voltados a atividade garimpeira. Um deles, de prefixo PR-HTQ, n\u00e3o est\u00e1 inscrito no Registro Aeron\u00e1utico Brasileiro (RAB), segundo a Ag\u00eancia Nacional da Avia\u00e7\u00e3o Civil (ANAC). A aeronave tamb\u00e9m n\u00e3o possui autoriza\u00e7\u00e3o especial de voo da ag\u00eancia, o que significa que voava clandestinamente. J\u00e1 a aeronave de prefixo PR-LNL, um helic\u00f3ptero R44 II da marca Robinson Helicopter, citado no documento da Funai, com capacidade para tr\u00eas passageiros, pertence desde 2017 \u00e0 seguradora Company Seguros S\/A (antiga Company Participa\u00e7\u00f5es S\/A), sediada em Goi\u00e2nia. A reportagem tentou contato com a Company Seguros mas at\u00e9 o momento n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n<p>Felipe Werneck\/Ibama<br \/>\nEstima-se mais de 20 mil garimpeiros ilegais na regi\u00e3o da TI, que vive uma crise humanit\u00e1ria<br \/>\nCrise humanit\u00e1ria<br \/>\nA crise humanit\u00e1ria que se abateu na Terra Ind\u00edgena Yanomami, a maior do pa\u00eds, ganhou, enfim, os holofotes do mundo e a aten\u00e7\u00e3o nos primeiros dias do novo governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. A TI \u00e9 assolada pelo garimpo de ouro \u2014\u00a0 estima-se mais de 20 mil garimpeiros ilegais na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>No territ\u00f3rio vivem cerca de 26 mil ind\u00edgenas dos povos Yanomami e ye\u2019kwana em 321 aldeias. O territ\u00f3rio foi reconhecido como de ocupa\u00e7\u00e3o tradicional, demarcado e homologado em 1992.<\/p>\n<p>O quadro de devasta\u00e7\u00e3o j\u00e1 vinha sendo denunciado por entidades especializadas, \u00f3rg\u00e3os de controle e imprensa h\u00e1 tempos.<\/p>\n<p>No dia 20 de janeiro, o governo federal declarou emerg\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica no territ\u00f3rio ap\u00f3s identificar uma alta de casos de mal\u00e1ria, desnutri\u00e7\u00e3o infantil e problemas de abastecimento.<\/p>\n<p>Em visita a Roraima, Lula prometeu dar dignidade ao povo Yanomami. A ministra da Sa\u00fade, N\u00edsia Trindade, classificou a situa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas como uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria \u2014 pelo menos 1.556 pequenos Yanomami t\u00eam hoje algum d\u00e9ficit de peso e as crian\u00e7as Yanomami morrem 13 vezes mais por causas evit\u00e1veis do que m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal tamb\u00e9m instaurou inqu\u00e9rito policial na quarta-feira (25), por determina\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, para apurar os crimes de genoc\u00eddio, omiss\u00e3o de socorro, crimes ambientais, al\u00e9m de outros crimes conexos em Terras Ind\u00edgenas Yanomami. A investiga\u00e7\u00e3o tramita na Superintend\u00eancia Regional da PF em Roraima e segue sob sigilo.<\/p>\n<p>Segundo a C\u00e2mara de Popula\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas e Comunidades Tradicionais do MPF (Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal), a omiss\u00e3o do estado em assegurar a prote\u00e7\u00e3o de suas terras levou a grave situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e seguran\u00e7a alimentar sofrida pelos Yanomami.<\/p>\n<p>Essa omiss\u00e3o do governo de Jair Bolsonaro tamb\u00e9m colocou em risco os ind\u00edgenas isolados que habitam o territ\u00f3rio. \u201cO garimpo tem sido a principal amea\u00e7a \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o f\u00edsica e cultural dos Moxihat\u00ebt\u00ebma, cujo territ\u00f3rio se encontra cercado pela invas\u00e3o garimpeira\u201d, diz um relat\u00f3rio da Funai revelado pela nossa reportagem em 2021.<\/p>\n<p>Por<br \/>\nThiago Domenici &#8211; Ag\u00eancia P\u00fablica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documento de 2021 cita helic\u00f3pteros clandestinos, homens armados e garimpo utilizando estrutura do governo dentro da TI Um documento obtido pela Ag\u00eancia P\u00fablica registra mais uma omiss\u00e3o do estado sob Jair Bolsonaro que deixou o territ\u00f3rio Yanomami, em Roraima, vulner\u00e1vel \u00e0 a\u00e7\u00e3o garimpeira ilegal. 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